De volta

Olá amigos
Completamos a Travessia e depois de tantos diários e boletins, vocês devem estar se perguntando por onde andamos.
O Picolé esta se preparando para sua nova missão: tornar-se um barco- escola para os jovens de Ilhabela
Na próxima semana o Igor volta para sua casa em Lyon .

E eu?Estou organizando uma nova palestra com toda a história desta longa e difícil travessia. Sempre que volto de viagem passo por este ritual e desta vez não será diferente. Quando estou no mar e encontro uma situação difícil como desta vez eu penso, a palestra vai ficar boa. Desta vez tenho muito a falar sobre tomada de decisão, assertividade, superação e relacionamento. Estes são temas interessantes para o mundo corporativo pois trazem a vivência real da experiência de velejar em um barco sem cabine por 37 dias em mar aberto da África do Sul ao Brasil.

Fotos: Igor Bely©

Diário de bordo dia 27 de abril de 2013.

Bom dia a todos.

…e agora? A viagem hoje chega ao fim, e o sentimento é o mesmo da mãe que da a luz ao filho e depois entra no processo de depressão pós-parto, rs. O que fazer agora que não tenho que fazer mais turnos à noite, não preciso mais me preocupar com o Picolé, não terei mais o Igor ao meu lado todos os dias, e não terei a natureza aos meus pés…

O dia da chegada é sempre um dia para lá de especial, pois é o momento que toda a realização se concretiza, e desta vez é diferente, pois nunca houve tantos amigos juntos apoiando, escrevendo e acompanhando. A vontade que tenho é de abraçar um por um, de olhar nos olhos e agradecer a oportunidade de ter vivido esta emoção tão intensa nestes últimos meses.

A viagem deu certo e o Picolé agora tem uma casa, a Ilhabela. Quero que este barco sirva de inspiração para as crianças e que ele passe a ser um barco escola, ensinando aos pequenos os valores que se precisa para ir ao mar. Preciso devolver tudo que recebi, e esta é uma das maneiras que vejo.

Tenho tanto a dizer para vocês amigos, mas confesso que estou embriagado de tanta emoção. Não sei exatamente como traduzir o que sinto.

Já fiz um diário nesta viagem que fala da amizade, e como disse me sinto muito rico por ter tantos amigos. Uma vida sem amigos seria como um mar sem água, pois quem nega este movimento natural da vida não viveu nada, não aprendeu nada e talvez quase não tenha existido em vida.

Tenho refletido muito nos últimos anos a respeito da crença de um deus, e sempre que faço este exercício tento me afastar do conceito religioso a respeito desta questão crucial na vida de todos nós. Por que falar de Deus hoje? Senti vontade de expressar o meu olhar sobre esta questão, pois eu venho buscando este entendimento dentro de mim e o mar me ajudou a sentir muita coisa. Não tenho a pretensão aqui de dizer a verdade, até porque a verdade ninguém sabe, no máximo posso atingir a sinceridade.

O que vou publicar é algo que venho escrevendo e reescrevendo, e acho que nunca irei acabar este texto, mas hoje vou compartilhá-lo com todos, pois ele trás um entendimento que tem a ver com a viagem.

DEUS

Nesta reflexão não quero dizer nada que contrarie crenças, dogmas ou religiões. Creio no livre arbítrio e respeito a história de cada um. Quero dizer o que sinto a respeito de Deus. Uma reflexão necessária diante deste momento limiar que vivemos.

Percebo Deus fora, e o reconheço dentro de mim também. Sobretudo, Deus para mim é a inspiração amorosa que nos move ao ato de criar. Olhando para o céu boreal pude ver muitas noites estreladas, e um vasto universo em movimento. Percebi que este movimento do universo segue uma ordem. Mesmo que eu ainda não o consiga compreender, algo me dizia que dentro de nós seguimos a mesma orientação.

Deus está nesta conexão, está na ação de ligarmos nosso universo interior com o de fora. Como a luz que acende quando ligamos o polo negativo com o positivo. Deus se faz presente no ato de equilibrarmos nossos aspectos negativos e positivos. Quando fazemos esta conexão dentro de nós, criamos a nossa conexão com o universo.

A ação que nos aproxima de perceber a divindade dentro e fora de nós, quando entendemos que o nosso poder de escolha é proveniente do coração, isso verdadeiramente nos leva a paz. Este movimento é Deus e não apenas um estado latente divino. A capacidade divina de transformação que nós trazemos, se não for mobilizada nos afasta da compreensão de Deus e nos aproxima das crenças, dogmas e religiões que nos colocam diante um materialismo espiritual estagnado e controlador. Bem, mas o que é controle? Controle é a tentativa bem sucedida de nos imobilizar e que vem impedindo que nosso poder criativo interaja com a inteligência divina e amorosa, nos impossibilitando assim, que reconheçamos a nossa identidade e propósito.

Religião é a tentativa de colocar toda a água dos oceanos dentro de uma garrafa, e espiritualidade é quando você percebe que tem um oceano dentro de você.

Quando a ação não se faz, a luz se esconde na sombra, e Deus deixa de existir. Pois Deus é vida, e vida é o movimento, e o movimento é transformação, e transformação é o que vejo quando olho para o céu. Quando não olho para o céu, me vejo estagnado, e me distancio de Deus.

Vejo Deus como uma ação e não como um ser. Não seria apenas a beleza da flor, mas a fotossíntese que ela faz, mobilizando a capacidade que ela tem de transformar a energia da estrela, que a enviou pelo espaço sideral. Este entendimento da flor em se transformar e crescer é Deus. Observando por este prisma, Deus é um entendimento amoroso que mobiliza a capacidade criativa de cada ser, a caminho do movimento de transformação constante.

Não vejo a flor se negar em ser flor, e se negar a se desabrochar, mas vejo isso na humanidade. O vento não nega em ser vento, e cumprir seu papel de carregar o pólen para longe, ou mesmo de empurrar meu barco para seu destino. Somos nós que nos negamos a desabrochar e seguirmos para nosso destino brilhante, viajando por um caminho de infinitas possibilidades criativas. O universo esta aí a nossa espera. Temos muito que fazer.

Esta eterna jornada em movimento que podemos criar através das nossas escolhas, provenientes da nossa capacidade de conexão, é Deus. Deus não é apenas um caminho, não é apenas quem caminha, e sim o resultado da jornada criativa.

Alguém pode se indagar a respeito de Cristo, Buda ou Maomé. Não consigo saber quem foram, só posso dizer sobre algumas de suas idéias. Prefiro me ater aos conceitos amorosos e pacifistas do que acreditar em algo que não posso saber. A personificação destes seres de luz nunca deixou meu coração acomodado.

Por isso nunca me senti bem a pergunta: Você acredita em Deus? Não acredito em Deus, reconheço Deus em mim e nos meus atos.

Tentaram me mostrar um Deus humanizado, que julga, que dá e que tira, e para quem, em orações, precisamos pedir por proteção. Um dia me dei conta que não precisava pedir nada, aliás, percebi o quanto estava sendo ingrato ao pedir.

Como posso acreditar em algo que não vivi. Como posso acreditar em algo que não experimentei. Acreditar é dar crédito a algo que não foi vivido, e isso nunca vou fazer. Jamais assinarei um papel em branco sobre o que é mais sagrado na vida de um ser. A oportunidade de trilhar a jornada do discernimento e da iluminação. Este é um caminho de solitude, que muitas vezes pode ser confundido como um abandono, mas a grande beleza desta jornada é perceber que caminhamos juntos e separados.

Não sei quando, mas sinto que um dia entenderemos que o despertar foi a decisão mais importante que a humanidade tomou, mas ainda procuramos de um conceito de Deus equivocado.

Equivocamo-nos em pensar que somos seres humanos imperfeitos. Seria melhor percebermos que pervertermos os conceitos divinos, causando sofrimento e nos distanciando de Deus.

Vejo assim. Somos bailarinos, mas insistimos em dançar a música errada. Isso não significa que não possamos voar.

Não acredito em Deus. Reconheço Deus em mim, também reconheço Deus no voo do pássaro, no salto do bailarino, no céu estrelado dos mares do sul, no ato de perdoar, na compaixão pelos desafortunados, no reconhecimento de que a jornada é longa, na alegria de estar com os amigos, na gratidão de ter sido concebido por meus pais e nos meus encontros afetivos.

A pequena viagem termina hoje, mas a grande viagem continua, e tudo que vivemos neste período foi permeado por tudo que é sagrado. A amizade é algo divino, pois trata da relação amorosa entre todos nós. O que pode ser mais importante na vida de um ser humano? Amar ao próximo como amar a ti mesmo é a maneira que temos de entender o amor a Deus.

Temos duas certezas; nascemos e partimos, e a quem cabe esta escolha? Não sei, mas o que sei é que o que fazemos neste intervalo é de nossa responsabilidade. Chama-se livre arbítrio e esta é a oportunidade que a vida nos cede para podermos criar o que quisermos. Um tempo nos foi cedido e hoje a viagem termina e quem decidiu o dia foi o vento.

A vida é assim, temos um tempo que não é nosso, mas dele podemos chegar a Deus.

Um grande abraço a todos com muito carinho.

Beto Pandiani.

Prato do dia: Paela.

Música do dia: Starway to Heaven, Led Zepellin.

Na reta final

Olá amigos
Estamos “escondidos” próximo a Ilhabela rs.Chegaremos amanha as 10:30hs
Espero vocês
Grande abraço

Igor Bely - Almost there

We are south of Ilha Grande, 75 miles from our destination. Of course there is no wind, but this is not a surprise anymore, but we are confident that it will come and that tomorrow morning we will be doing what we have been dreaming for 35 days: walk on the beach. Wish us good luck for these last miles!!

Boletim hoje na Eldorado FM 107,3 

Olá amigos

Ouçam o meu boletim de hoje às 13:50hs, exclusivo para a Eldorado FM 107,3

Diário de bordo do dia 25 de abril de 2013

O Picolé virou poleiro de atobá.
Estão querendo nos testar? Já sabia que os deuses iam mandar a conta, rs.
O trato foi o seguinte. “A viagem vai dar certo, mas vocês vão ter que pagar um pedágio”. Estamos pagando mesmo, pois a falta de vento está sendo a marca da viagem. Ou pancada, ou merreca. Ontem não foi diferente, e passamos o dia todo olhando para o Rio de Janeiro, e não passava, e não andava e ainda havia uma corrente contra que adiava nosso pequeno progresso.
Na hora do almoço dois atobás começaram a rondar o Picolé e é bem comum eles cismarem com o zepelim que temos no topo do mastro. Mas estavam bem baixos, até que um deles conseguiu um pouso inédito e se equilibrou na ponta do pau do spinaker bem na frente do barco. Não acreditamos na figura e com cautela começamos a fotografa-lo. Passado meia hora ele já estava em casa, inclusive fazendo cocô no pau do balão. Logo depois chegou seu outro amigo e pousou ao lado. Um atobá já era raro, dois então…
Veio o terceiro e aí pensamos; vamos fazer um poleiro. Falamos tanto em trazer ovos e acabou que nos esquecemos. Agora quem sabe um deles não vai botar um ovo, rs.
O vento rondou e tivemos que subir o balão, então acabamos com o delivery e eles saíram voando. Ainda nos acompanharam por um tempo, mas depois sumiram.
Como não podemos dessalinizar água pela proximidade da costa, nosso estoque de água mineral baixou rapidamente e pedimos que nossos amigos cariocas nos abastecessem. Às 16h30min chegaram de barco a motor o Ricardo Ermel e o Cacau Peters, meu grande amigo e vizinho em São Paulo que estava no Rio a trabalho. Grande surpresa! Ganhamos bananas e maçãs, mais doze garrafas de água mineral. Dá até para tomar banho de água doce.
Seguimos nossa epopeia para chegar a Ilhabela no sábado às 10h30min na Praia da Armação.
Entrou um ventinho melhor, mas a corrente contra estava mais forte ainda e, embora o barco andasse mais rápido, o GPS indicava que estávamos a dois ou três nós. Caramba, que paciência que preciso ter. Desde a Ilha de Trindade há dez dias estamos navegando na merreca.

 Veio a noite, a Lua cheia e navegando com o balão, fomos pouco a pouco deixando as luzes do Rio para trás. Amanheceu com um vento de terra muito bom. Ficamos animados, mas o vento baixou, baixou e foi embora. Estamos aqui balançando, as velas batendo fazendo um som irritante e torrando no Sol. Haja Red Bul….é preciso muita energia pra superar tantos obstáculos.
Esta rotina é um teste mental extremo, e ainda preciso saber o que preciso aprender com esta situação. Paciência! Estamos há apenas 75 milhas da Ilha, e daqui vemos a ponta da Joatinga, perto de Paraty. Tão perto e tão longe. O que fazer? Nada, apenas cumprir o trato com Éolo e esperar que surja uma pequena brisa para nos empurrar para casa.
Quero hoje fazer dois agradecimentos a dois amigos que gosto muito. Fabrizio Fasano que doou uma foto para ser vendida no Pote. Muito obrigado Fa, estamos juntos.
Marfará, já são mais de 30 anos de amizade. Muito obrigado pelo seu eterno apoio. A Academia Reebok tem sido fundamental para a minha preparação. Um grande abraço, estaremos juntos em breve.

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Fotos: Igor Bely©
Um grande abraço a todos.
Beto Pandiani
Prato do dia: banana e maça.
Música do dia: Balança Pema, Marisa Monte.

Igor Bely - So close and so far…

We did 20 miles in the last 20 hours…. and we have yet 120 miles to go. 120 miles: it is nothing comparing to the 4000 miles that we just did but as we have no wind… again. My father always told me ” there is NEVER more than3 knots of wind in front o Rio, avoid it…” we should have.
We are going very slowly, asking every boat that passes by if they could give us a tow but no success for the moment. As we are not far from the big city of Rio the sea is literally covered with bottles, plastic, dead fishes…. What a nice day!!

Diário de bordo do Picolé, 24 de abril

O Brasil que sonhei e o Brasil que encontrei.
Bom dia amigos. Como sempre o dia começa cedo a bordo do Picolé, e às vezes não existe começar, e raiar do Sol não significa começar em um barco a vela. As noites são arrastadas e cheias de acontecimentos no mar.
Bom dia Zé Renato, ontem me esqueci de te agradecer pela festa no Espaço Off, agradeça a todos aí, forte abraço.
Muito obrigado também à Track & Field pelas camisetas. Abraço Fred, Beto e Ricardo.
Um pouco mais sobre a chegada em terra: ontem, depois de uma manhã com pouco vento e muita correnteza, chegamos à ponta mais lançada de Cabo Frio e passando em frente a Rio das Ostras liguei para um grande amigo, o Murillo Novaes, e pedi a ele que comprasse dois cheese burgers com fritas, dois refrigerantes e nos levasse a praia.
Parar a viagem para matar um pequeno desejo que naquele momento parecia uma coisa surreal. Algumas horas antes nós estávamos com mau tempo, chuva durante toda a noite, e passado meio dia chegávamos a uma praia linda, com águas serenas e com gente. Fazia tempo que eu não via um carro, uma casa e todas as coisas urbanas.
O encontro foi sensacional e como sempre o Murillo chegou todo sorridente com água mineral e os sanduiches. De repente, aparece uma vendedora de sorvete com um carrinho escrito picolé. Pronto, já fizemos uma foto juntos e explicamos a ela que nosso barco também se chamava Picolé. Aos poucos vieram alguns curiosos ver o barco e o Murillo dizia: “ Estes caras estão chegando da África” Engraçado ver as expressões. Uns olhavam para o barco e depois para nós com cara de desconfiança.
Não resisti, andei um pouco na praia, aliás, dei uma corrida na areia, precisava sentir o chão e o espaço. Fui até uma barraca de praia destas que vendem camarão frito e todas as coisas deliciosamente gordurosas.
Ali conheci uma figura, a Helô, a dona da barraca. Uma mulher morena bem forte e muito falante. Disse a ela que queria levar para viagem umas coisinhas, tipo; camarão, isca de peixe e aipim. Ela me perguntou por que eu não comia lá e eu expliquei que tinha pressa e estava chegando de viagem e tinha que prosseguir. Ela me perguntou: “De onde você vem moço?”. Respondi: “da África”. Ela espiou o barco, me olhou e disse.”Adoro o mar, mas ele ali e eu aqui. Você é muito louco moço!” Dei risada e me apresentei. Passado uns 20 minutos a Helô apareceu no barco com a comida em duas travessas de plástico. Disse-me que as travessas eram presente dela para não nos esquecermos dela. Eu disse que não precisava das travessas para me lembrar dela. Nunca me esqueço destas paradas carregadas de tanta surpresa, e nem das pessoas que nos trataram com tanta generosidade e simpatia. Fizemos fotos juntos, mostramos o barco a ela e nos despedimos. Esta é a marca do Brasil para mim e como já naveguei toda a costa brasileira, sei bem o que é receber este afeto de pessoas simples, espontâneas e engraçadas. Quando entramos no Brasil vindos de Puerto Montt na Expedição Rota Austral em 2001, paramos os dois catamarãs em uma longínqua praia do Rio Grande do Sul chamada Praia da Solidão e lá encontramos o Seu Serafim que nos acolheu e acabamos dormindo em sua casinha que ficava atrás das dunas. O Seu Serafim era um grande contador de histórias. Era casado e tinha dois filhos mais velhos que vinham vê-lo de carro pela praia e também abastecê-lo. Ele morava no meio do nada. Na sua modesta casa havia uma pequena TV de tubo de 14 polegadas ligada em uma bateria de carro. Aquele pequeno televisor era a janela dele para o mundo. Só tinha energia para ver o noticiário e a novela junto com a sua esposa. Não sei o que ele pensou em ver quatro velejadores chegando com barcos tão desprovidos naquele lugar esquecido, mas a sua generosidade em nos acolher e insistir para que jantássemos juntos me deixou tocado. São pessoas que tem muito a oferecer, apesar de terem tão poucos recursos financeiros. Às vezes associamos coisas, bens materiais com o ato de oferecer. No fim se refletirmos acho que nós invertemos as coisas, pois ao oferecer algo a alguém, na verdade estamos recebendo. Estamos recebendo a oportunidade de oferecer, de doar ou de servir e este é um dos propósitos mais elevados da alma humana, creio eu.
Saímos da Praia do Sonho às 15h00min de barriga cheia, e o nome não podia ser melhor, pois sonhávamos com um sanduiche de verdade. Com vento leve passamos pelo boqueirão de águas azuis e transparentes, saindo para mar aberto em direção ao Rio de Janeiro. Esta rota parece uma avenida de barcos de serviço e navios da Petrobras. Eles vão e vem do Rio para a Bacia de Campos o tempo todo. Navegamos a noite toda de olhos bem abertos e pelo rádio ainda tentamos uma carona até a frente do Rio, pois o vento foi parando até deixar o Picolé bem lento. Do lado direito do barco as luzes do continente deixavam a navegação com um ar de mais segurança. O meu medo da navegação em mar aberto e longe de terra é do barco quebrar e termos que abandoná-lo no meio de um resgate. Isto seria uma grande dor para mim. Este é o meu segundo pior medo. O primeiro é cair na água à noite e morrer sabendo que vou morrer em alguns minutos. Esta situação me veio algumas vezes na mente durante a viagem e me via imaginando o que eu pensaria nessa hora. Pensaria nas pessoas queridas que não veria mais, que estava partindo sem me despedir, enfim, que seria uma morte carregada de tristeza. Mas trabalhamos para que isso não fosse um risco usando cinto de segurança e colete. Este é um alerta, pois não temos data de validade e ninguém sabe o dia da partida, portanto vamos usufruir o melhor da vida que é se relacionar bem com as pessoas a nossa volta. Pense nisso sempre, e faça tudo em vida com consciência.
O que eu sonhei este mês que fiquei velejando em mar aberto? Sonhei acordado, com muitas coisas, tive tempo de refletir sobre algumas das minhas sombras, meus medos e como a nossa vida aqui neste planeta é organizada, ou desorganizada. Quando temos tempo para reflexões percebemos o quanto nos falta ainda, o quanto temos que melhorar.
Amo o Brasil, amo a nossa cultura, aqui estão meus amigos, minha casa, minha família, meu amor e minha realização profissional. Mas falta muita coisa para eu me sentir feliz plenamente. Como posso ser feliz vendo uma porção de gente a minha volta vivendo de maneira miserável? A miséria a que me refiro não é somente a pobreza material, mas também a miséria espiritual, em ver a falta de reconhecimento de muita gente em relação a maior riqueza que temos. O mundo anda esquecido da nossa vocação que é a generosidade. Nossa educação é falha e educar no Brasil é alfabetizar. Onde andam os valores, o amor à nossa terra? Aprender a cantar o hino nacional não é ser patriota, aliás, preferiria que o nosso hino fosse Aquarela do Brasil. Tem muito mais a ver para mim.
Estou falando de educação, pois ontem à tarde o Igor e eu ficamos chocados. Quando saímos mar aberto passamos horas olhando o lixo passar ao nosso lado boiando. Milhares de embalagens por todos os lados flutuam por estas águas. Não vi nada parecido em nenhum lugar do mundo. Sei que existem ilhas de lixo no meio do Pacífico que estão presas por correntes marinhas que acabam deixando-as agrupadas. Mas depois de ficar tanto tempo sonhando com o Brasil, a minha terra amada, foi isso também que encontrei. Lixo no mar.
Este é o Brasil de contrastes, o Brasil generoso e o Brasil sem educação e sem rumo, com valores trocados. Sei que o que sonho é uma obra de todos e mesmo que eu faça o máximo, eu nunca verei pronto o que sonhei, talvez um pouco melhor. Mas nem tudo que plantamos, vemos florescer. A colheita vem de outra forma. Às vezes penso assim: um dia minha alma vai voar por aí, por universos paralelos e quem sabe eu possa olhar o planeta Terra de longe e enxergar uma pequena luz acesa e saber que eu ajudei a iluminá-la. Isso seria uma grande benção para a minha alma.
Enquanto estou aqui junto a todos, tento ser o melhor humano possível e dentro desta busca confronto minhas sombras e tento compreendê-las e por fim equilibrá-las aceitando-me como um aprendiz. Vejo que a mudança que todos nós sonhamos começa dentro de cada um, e o lixo que vi no litoral fluminense e que existe em toda a parte, é um reflexo do nosso mundo interior que anda muito poluído. O mundo exterior tem o papel de nos dar a referência dos nossos atos e da nossa índole interior. Não cabe aqui acusar ninguém, mesmo sabendo que o poder público é omisso, mas vale a pena olharmos para a nossa potencial capacidade de sermos generosos, reconhecendo-a como a nossa grande qualidade.
Precisamos aprender a receber, pois a vida já nos deu tudo, a natureza é uma prova disso. Para mim, pedir em orações muitas vezes é uma falta de capacidade de reconhecer tudo que a vida nos deu e continua a dar. Uma espécie de mau agradecimento. Entendo que as nossas orações deveriam buscar o entendimento de que a salvação vem de dentro de cada um de nós. O que criamos e não funciona deve ser recriado. O que fazemos e é injusto deve ser desfeito e feito com amor. Deus não virá nos proteger ou nos salvar de nós mesmos. O maior inimigo do Brasil é o Brasil. O seu maior inimigo é você mesmo, e o seu melhor amigo também é você mesmo.
Continuamos a velejar, e dia 27 vamos todos comemorar em Ilhabela a nossa chegada e conclusão desta longa jornada.

Por que viajar? A viagem é um pequeno exercício, uma prática, para lembramo-nos que a grande viagem é a existência.

Um grande abraço a todos.

Fotos:Igor Bely©

Prato do dia: Camarão, aipim e isca de peixe.
Música do dia: What you believe, Richard Bona

23 de abril, feriado de São Jorge, 13:00hs

Terra firme!!!

Olá amigos, depois de 34 dias no mar finalmente pisamos em terra, ou melhor, na areia rs. Missão cumprida: navegamos direto da África do Sul ao Brasil!

Chegamos à praia dos Anjos, em Arraial do Cabo, onde nosso grande amigo Murillo Novaes nos recebeu com sanduiche e refrigerante – vocês não imaginam o sabor que isso tem depois de tantas refeições liofilizadas.

Aproveitamos para retirar o lixo de dentro dos cascos, já que não jogamos na água nada que pudesse poluir o oceano e, antes de partirmos para Ilhabela, compramos aipim frito e um peixinho feitos pela Dona Helô a quem presenteamos com nossa comida de bordo .

Depois dessa pausa zarpamos rumo a Ilhabela, velejando no mar turquesa do Pontal do Atalaia.

Amanhã próximo à hora do almoço passaremos ao largo da Baía de Guanabara – quem estiver por perto pode nos levar algumas frutas, será muito bem vindo!!

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Fotos: Murillo Novaes©

Grande abraço

Diário de bordo do Picolé, dia 23 de abril

Terra à vista.
Com ou sem emoção?
Com emoção, sempre. Ontem foi um dia para não sair mais da memória.
O dia começou com um ótimo vento de sudeste com ondas laterais, mas que não agrediam muito o Picolé. Passamos o dia vendo navios, plataformas da Bacia de Campos e vários navios esquisitos que pareciam de pesquisa. Passamos bem colado a um deles, com bandeira da Noruega e não havia ninguém para nos saudar. Parecia um navio fantasma. Em seguida colamos em outros dois navios e um deles estava ancorado de todos os lados. Parecia uma fábrica flutuante e alguns operários ficaram tão surpresos em nos ver, que não respondiam aos nossos acenos. No fim começou a aparecer mais gente e acabamos sendo saudados.
Eu não tinha idéia do tamanho da Bacia de Campos e da quantidade de plataformas. À noite elas ficam todas acesas e de longe tem se a impressão que se está vendo as luzes de alguma cidade. Uma cidade no mar.
Um grande mau tempo começou a se aproximar e já sabíamos que teríamos chuva à noite. Não queríamos que este sistema estragasse o nosso vento. Estragou, mas antes ganhamos um presente: cerca de 200 golfinhos apareceram para brincar com o Picolé. O que nos impressionou foi que, quando alguns nos descobriram todos foram avisados e rapidamente começaram a saltar em conjunto, como se fosse uma força de ataque, dezenas deles. Não sabíamos para que lado filmar e fotografar. Eles saltavam alto, outros em parafuso e vinham com velocidade passando por baixo do barco e aparecendo na proa. Foram uns dez minutos que pareceram alguns segundos. A vontade que me deu foi de abraçar estes lindos bichos. Havia muitos filhotes e deu para perceber que nos olhavam quando nadavam ao nosso lado. Em determinado momento algum deles deu uma ordem e todos se viraram para o lado oposto e emparelhados começaram a saltar, nadando sabe lá para onde.
Continuamos nossa empreitada rumo à Cabo Frio, empurrados por um bom vento vindo da chuva que já estava anunciada. Anoiteceu e nos preparamos para uma noite dura. Começou a esfriar e antes da luz sumir, jantamos. O vento foi caindo, caindo e a chuva nos alcançou. Fizemos nossos turnos durante a noite e encharcados buscávamos luzes no continente, mas formou-se uma névoa e assim a nossa chance de ver luzes caiu. Por volta das 3 horas da manhã vimos a luz do farol de Cabo Frio e logo em seguida vi luzes que pareciam ser de terra. O que me confundia é que havia tanto barco no mar que era fácil se equivocar. Quando o dia começou a clarear apareceu o boqueirão de Cabo Frio.
Respirei forte e me emocionei. Sentei na lateral do barco,que velejava vagarosamente, e pensei. Vi terra dia 23 de abril, 34 dias depois de termos saído de Capetown. Está feito, cruzamos o Atlântico, agora é chegar em Ilhabela. Logo começou a vir um sentimento de gratidão a todas as pessoas que colaboraram conosco, pelos amigos do Face, do blog.

Marilia, manda um abraço grande para todos aí da Mitsubishi e diz que o Picolé é a nossa Triton 4X4, que andou quase 8 mil quilômetros de asfalto esburacado. Manda um grande abraço para toda a equipe de atletas da Mit. Beijo grande para você.
Estas noites precisamos de muito Redbull e por algumas vezes queria as asas para voar. Grande abraço Gustavo. Manda um abraço para o Pedro Navio, Paula e Alexandre.
Olá turma da Radio Eldorado, grande abraço a todos, parceiros de mais de 20 anos.
Alô alô galera da Abril Digital, estamos juntos, o Tumblr está sendo um sucesso, vamos juntos para o Ártico. Obrigado Ricardo.
Ao meu primeiro patrocinador que em 1993 começou esta longa parceria que hoje completa 20 anos. Obrigado Semp Toshiba, sem vocês nenhuma das sete viagens teria acontecido. Afonso, te vejo em breve. A toda equipe da Semp Toshiba um grande abraço e obrigado pela assistência e pelo notebook STI Extreme. Abraço a Carla, Toni e ao Wagner.
Aos novos parceiros da Certisign muito obrigado por acreditarem em nosso projeto. Juntos mostramos a aplicação da assinatura digital à distância, assinando um documento no meio do Atlântico. Abraço ao Sergio, Paulo, Adriana, Natali e Marta.

Camila e Ana Paula do Pote, beijo grande a vocês, o entusiasmos de vocês foi fundamental.
Luca, novamente juntos com a Santa Constância, obrigado pelas camisetas, grande abraço.
Gabi, as velas são sensacionais, muito obrigado novamente. Abraço a todos da North Sails Brasil e Argentina.
Obrigado Arycom que nos deu todo apoio na telefonia via satélite. Novamente juntos.
Fafu, meu querido irmão, obrigado pela sua força e boa vontade em tudo. O Suunto Ambit é sensacional.
Matheus e Silvia, obrigado pelo apoio da Brastemp, a clinica no Picolé vai ficar super bacana. Todo mundo vai comer comida liofilizada, rs.
Agradeço a todos que nos acompanham pela net e reforço o convite: dia 27 de abril, próximo sábado, vamos chegar a Ilhabela na Praia da Armação. Estão todos convidados para a festa da chegada.
Pedrão, você é um grande amigo querido e não vejo a hora de poder te dar um grande abraço. Denise, digo o mesmo para você, fico feliz de tê-la a bordo.Doro, grande abraço amigo, saudades.
Tutuca e Benê, meus queridos e ternos amigos. Não viajo sem vocês e tão pouco vivo sem estar por perto. Amo muito vocês. Todos a bordo.
Dona Ivonette. Sei como é coração de mãe e imagino o que é ter quase 93 anos de idade e ter um filho como eu que gosta de se lançar no mar, mas fica sempre a lição. Confie que vale a pena. Você já passou por sete viagens e já está bem escolada, rs. Muito obrigado por ser meu farol nesta vida. Te amo muito.
Carla, impossível não escrever nada sobre você, e quero te dizer, que sua energia e seu carinho me emocionaram e me deram muita força quando achava que estava muito difícil. Obrigado pelo amor, pela paciência e por me esperar. A saudade é imensa, te amo.
O Igor e eu estamos cansados, mas muito felizes. Assim que vimos terra tomamos o vinho do Porto, que o Manuel Mendes nos deu em Capetown,. Brindamos a você Manuel, que nos acompanhou diariamente falando por telefone a meteorologia. Muitas saudades amigo. Duncan e Pat, beijo grande para vocês ai em Capetown. Beijo para as meninas.
Neste instante entrou um ventinho que nos empurra para o Rio de Janeiro. Amanhã tem mais.
Abraço a todos.

Fotos:Igor Bely©

Prato do dia. Cuscuz.
Música do dia: Descobridor do sete mares, Lulu Santos.